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Restaurantes e Bares

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Rinconcito Peruano abre duas filiais e promete a 3ª até o fim do ano

Edgard Villar chega imponente, todo de preto – dólmã, com botões vermelhos e seu nome bordado, avental, bandana, crocs. Tinha ido em casa tomar um banho e se preparar para as fotos. O dono do Rinconcito Peruano mora ali mesmo na boca do lixo, pertinho do restaurante.

04 novembro 2015 | 18:38 por patriciaferraz

Gosta do bairro e, mesmo depois de ter ganhado dinheiro, diz que não pensa em se mudar. “O aluguel é baixo, pago R$ 700.” A ex-mulher e sócia, Feliciana, vive no mesmo edifício em outro apartamento com os dois filhos do casal. A localização é boa também para ela, que passa o dia no caixa do restaurante (e não é de muito papo).

O dono da rua. Edgard Villar posa na rua Guaianases, onde abriu a primeira das três filiais que terá até o fim do ano. FOTOS: Tiago Queiroz/Estadão

O peruano se instalou no Centro quando chegou de Lima, em 2000, depois de oito dias viajando de ônibus. Tinha deixado para trás muitas dívidas, Feliciana e uma filha recém-nascida. Parou primeiro em Corumbá e ali foi aconselhado por um boliviano que conheceu na viagem: se procurava trabalho, era melhor ir para São Paulo.

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E ele veio. Ilegal, com pouco dinheiro, arrumou emprego em troca de casa e comida com uma peruana que vendia bijuterias artesanais. Aprendeu a fazer brincos de casca de coco, pulseiras de linha e, depois de três meses, já trabalhava por conta própria. “Fui camelô por uns três anos, na 25 de Março, mas perdia muito com rapas, Polícia Civil, Polícia Federal.”

Com forte sotaque e jeito desconfiado, evitando se estender em alguns detalhes, Edgard vai contando sua história. Se emociona ao falar da infância pobre no pueblo de Ocobamba, região de Apurímac, no sul do país. A família tinha uma pequena roça, alguns animais e trocava alimentos com os vizinhos – é dessa época a foto dele e dos irmãos num burrico que está na parede de seu escritório. O pai morreu quando Edgard tinha 11 anos, e ele foi para Lima, viver na casa de um tio que vendia comida numa feira livre.

Foi o tio que serviu de inspiração quando Edgard resolveu trocar a vida de camelô em São Paulo pela de marmiteiro. “Eu fazia arroz con pollo, ceviche e lomo saltado e vendia para os peruanos na 25 de Março. No começo usava uma panela emprestada e cozinhava em fogão de uma boca.” Juntou dinheiro para trazer a mulher e a filha de Lima e diz que em dois anos poupou os R$ 10 mil que usou para comprar o ponto da sobreloja na Rua Aurora, 451, onde abriu o restaurante. “Era um boteco feio, as paredes sujas, tinha uma mesa de sinuca bem no meio, coloquei umas mesas dobráveis e, enquanto não tinha clientes, continuei levando marmita e ia fazendo minha propaganda.”

Ceviche individual dá para dois e custa R$ 27,90

Sem placa, sem dinheiro. O Rinconcito Peruano abriu em 2005 sem placa na porta e com apenas 14 lugares. Os conterrâneos foram aparecendo, aos poucos. Meses depois, mais ajeitado, o lugar acomodava 40 pessoas. “O ceviche custava R$ 10, eu vendia uns 30 por dia, mas servia também um prato pronto por R$ 5”, lembra o dono da casa. O começo foi difícil. Por muitos anos, ele, a mulher e um ajudante, Cauê (o brasileiro, que emprestou o nome para registrar o restaurante e hoje é o administrador) faziam tudo.

Cozinhavam, serviam, limpavam, cobravam. “Eu ia na Ceagesp de madrugada para comprar peixe, não tinha dinheiro para pagar carregador, puxava os carrinhos sozinho.” Hoje Edgard tem mais de 70 funcionários, mas diz que ainda é ele quem compra os peixes nas madrugadas, às terças e quintas.

A diferença é que agora os fornecedores entregam no restaurante. E não podia ser diferente: ele compra 2 toneladas de tilápia por mês e mais 1.300 kg de lula, 1.500 kg de camarão, 350 kg de mexilhão e 800 kg de polvo. É o que precisa para atender os 22 mil clientes que vão ao restaurante a cada mês. O Rinconcito está invariavelmente lotado, dia e noite.

Mesmo nos dias de semana, é raro escapar da fila na escada que dá acesso ao salão barulhento, decorado com mantas de lã nas paredes e máscaras do Mercado Índio, em Lima, que fazem os garçons se sentirem em casa.

A casa do Tatuapé, que abriu no dia 20 de outubro, com amplas janelas numa esquina simpática

A maioria de funcionários é peruana, algumas histórias devem ser parecidas com a de Edgard, mas é difícil estender a conversa, o patrão logo aparece e o papo murcha. Carlos, irmão e braço direito de Edgard, também não é de muita fala.

Edgard Villar tem uma fórmula de sucesso: oferece comida peruana tradicional, boa e farta, a bom preço. Os ingredientes são frescos, porém baratos: o peixe é tilápia, a cebola é a branca, que custa menos que a roxa tradicional. Faz o que pode para economizar, mas diz que somam-se a isso muito trabalho, pouco descanso e a ajuda de Deus.

A vizinhança contribui para o “folclore” da casa, mesmo que isso tenha seu preço – para vigiar o ambiente, foi preciso instalar 16 câmeras, que Edgard controla de uma tela de tevê em seu escritório fechado com porta automática. “Muita gente saía sem pagar, também havia roubos no salão”, conta.

Sem crise. Num ano de crise, em que dezenas de restaurantes fecham as portas, a casa que nasceu com a pretensão de ser apenas um “cantinho” peruano, como diz o nome, está tomando a proporção de um enorme galpão inca. Há dez dias, o Rinconcito Peruano abriu uma filial numa esquina simpática do Tatuapé, com 200 lugares, amplas janelas de vidro e algumas mesinhas na calçada. “Percebi que muitos clientes vinham da Zona Leste e resolvi abrir lá”, diz Edgard.

A primeira filial foi inaugurada em julho, na rua Guaianases. A terceira já está em obras, deve abrir até o fim do ano na esquina da Rua Aurora com a Vieira de Carvalho, um lugar amplo com dois pisos. Quando a reforma terminar, a matriz será ampliada com a incorporação do bar que funciona no térreo do imóvel. E mais 120 lugares que serão somados aos 292 atuais.

As conquistas recentes incluem uma frota de cinco veículos, entre eles a picape de cabine dupla Mitsubishi L200 Triton, que suaviza a ida diária de Edgard Villar até o Tatuapé. Tantos novos investimentos indicam que o Rinconcito Peruano tem um sócio investidor? “Não.” Por que só agora resolveu abrir as filiais e todas no mesmo ano? “Nos últimos dois anos eu estava construindo em Lima: fiz um predinho e uma casa para minha mãe.”

Depois disso chega? “Para este ano está ótimo. Depois a gente vê”, diz o peruano de 37 anos, que não vê motivos para parar.

A filial da rua Guaianases, inaugurada em julho

Comida peruana na rua Guaianases

O sucesso do Rinconcito estimulou a abertura de vários pequenos restaurantes de cozinha peruana nas imediações. Só na rua Guaianases, a menos de uma quadra do Rinconcito, contam-se quatro casas. No número 130 fica o Arequipa; no 154, o Pollo alla Brasa; no 153, uma casa sem nome cuja placa indica Comida Peruana e, em frente, na sobreloja do número 154, tem mais um, sem nome. “São todos de ex-funcionários”, afirma Edgard Villar, dono do Rinconcito Peruano, que aproveitou a onda para abrir em julho sua primeira filial ali na Guaianases 167, com 50 lugares.

SERVIÇO – RINCONCITO PERUANO

Matriz. Rua Aurora 451, Santa Ifigênia, tel. 3361-2400.

1ª filial. Rua Guaianases, 167, Santa Ifigênia, tel. 3222-8310.

2ª filial. Rua Serra do Japi, 696, Tatuapé, tel. 2539-2033.

>> Veja a íntegra da edição de 5/11/2015

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