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Restaurantes e Bares

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Ao ponto

José Orenstein

Sa Gun Ja é boa Coreia fora do eixo

Quer conhecer culinária coreana? Vá direto ao ponto: o Sa Gun Ja, no Morumbi, agrada iniciantes e iniciados; entre os pratos provados, tudo estava muito fresco e bom

27 abril 2016 | 19:49 por José Orenstein

Ninguém me perguntou, mas tenho um roteirinho para quem quer se iniciar na comida coreana: comece pelo Portal da Coreia, na Liberdade, com seu vasto cardápio, receptivo a marinheiros de primeira viagem. Depois vá para a Aclimação e visite o Bicol e o Lua Palace, também acessíveis a iniciantes de fora da colônia e que servem pratos tradicionais sem afetações. Quando já estiver craque no manejo do jeotgarak (o hashi coreano, de metal), circule pelo Bom Retiro e tente a sorte nos vários restaurantes em que mal se fala português, como o autêntico, bom e barato Hwang To Gil. 

No 'bibimbap', o arroz na cumbuca de pedra quente guarda o frescor das verduras

No 'bibimbap', o arroz na cumbuca de pedra quente guarda o frescor das verduras Foto: José Orenstein|Estadão

Agora, se você quiser ir direto ao ponto, pule todas essas casas, vá ao Sa Gun Ja. É tiro certo: agrada a iniciantes e iniciados. Na verdade, mais até aos iniciados. É frequentado por executivos coreanos expatriados, que trabalham nas redondezas, na Hyundai, LG, Samsung, Banco da Coreia. Coreano será a língua que você mais vai ouvir nos cômodos que fazem as vezes de salão nesta casa transformada em restaurante. Um dos garçons me disse que 95% do público ali era coreano, o que só pode ser bom sinal. Fique tranquilo, porém: atendentes brasileiros solícitos garantem a tradução de pratos, hábitos e costumes para o português. Vá sem medo.

O Sa Gun Ja fica numa ruazinha insuspeita no Morumbi. A casa é simples, tem um letreiro à porta. Logo na entrada, passa-se por um corredor em que se desvia dos sapatinhos de judia, bonitas flores pendentes do pergolado. Uma placa com um símbolo indecifrável tem um seta que manda virar à esquerda. Melhor obedecer, entrar e escolher uma mesa numa das salas, com paredes nuas e decoração despojada. 

Com o cardápio em mãos, as opções são várias – e os preços não são baixos. Essa é uma das principais diferenças do Sa Gun Ja para seus primos mais humildes no Bom Retiro e na Aclimação. Numa das visitas, um dos garçons (coreano, num esforçado português) disse que os preços eram mais altos porque ali a comida e o ambiente eram mais sofisticados. “Tudo, tudo é feito na casa”, disse ele.

“Aqui não tem Ajinomoto, carne e peixe só fresco, todas as conservas são produzidas na nossa cozinha. Até esse chá que você está tomando é especial: é feito com água mineral, porque a do filtro tem muito cloro.” Não pude nem teria como verificar as afirmações dele, mas, do que comi, estava mesmo tudo muito fresco e bom. A experiência vale quanto custa.

 

  Foto: José Orenstein|Estadão

Os pratos tradicionais e mais conhecidos são ótimos. O bulgogui, churrasco típico de carne bovina marinada (no almoço já vem pronto na mesa; à noite, é grelhado na sua frente, na chapa em forma de calota), tem uma delicadeza difícil de ver noutras casas coreanas. O bibimbap (diz-se pi-bim-pá) é conforto puro, mexidão de arroz com vegetais e ovo numa pedra quente – fica ainda melhor com a saborosa pasta de pimenta vermelha caseira, o gochujang (repita: kochu-ján).

As caldeiradas são excelentes, encorpadas, restauradoras – a de cogumelos com carne é especial. Os banchans, acompanhamentos que vêm em pequenos pratinhos e que povoam qualquer mesa coreana, são bem cuidados, como as raízes de ginseng e o kimchi, conserva fermentada de acelga apimentada. 

E tome melancia e chá no final, para desafogar a ardência toda da refeição. Importante: durante a semana, no almoço, o cardápio é reduzido.

CONTEXTO

Aberto em 2009, o Sa Gun Ja é da família Kang, com Cristina à frente da cozinha. Fica no Morumbi, fora do eixo Bom Retiro/Aclimação, tradicional reduto de casas coreanas, onde Cristina também já teve seu restaurante. Atende majoritariamente a comunidade coreana.

O MELHOR E O PIOR

PROVE

O bulgogui. A carne tem tempero suave – sente-se a marinada na soja e o leve adocicado, em meio às algas e berinjelas.

A caldeirada de cogumelos. Saborosa e farta, vem com carne bovina, tofu e acompanhamentos.

O bibimbap. O arroz na cumbuca de pedra quente guarda o frescor das verduras. Peça com ovo cru.

EVITE

Ir sem reserva. De dia, na hora do almoço, até dá. À noite, não conte com a sorte.

A caldeirada de kimchi. Na verdade só evite se você tiver problemas com comidas apimentadas.

Na versão do almoço, a comida é servida dentro de uma cumbuca de pedra

Na versão do almoço, a comida é servida dentro de uma cumbuca de pedra Foto: José Orenstein|Estadão

Estilo de cozinha: coreana tradicional.

Bom para: almoço fora do comum na semana; jantar festivo em mesa maior.

Acústica: o salão é pequeno e com teto baixo, mas o ruído é pouco.

Vinho: não há uma carta. À pergunta, repetida, de que vinhos havia, o garçom mencionou apenas uma espécie de vinho coreano. Não pedi. Melhor mirar no destilado coreano soju. Taxa de rolha: R$ 50.

Cerveja: só Original ou Bavaria Premium, a R$ 7. A revolução cervejeira ainda não alcançou o Sa Gun Ja, que também não parece ligar muito para isso.

Água e café: água de 300 ml a R$ 3; não tem café, mas um bom chá da casa, de cevada, cortesia.

Preços: o cardápio é um pouco confuso, mas pratos vão de R$ 60 a R$ 190, e vêm com acompanhamentos típicos. Almoço na semana de R$ 48 a R$ 65.

Vou voltar? sim. Falta explorar ainda mais o menu. Pena ser longe de onde moro.

SERVIÇO

SA GUN JA

R. Profº Santiago Dantas, 192, Morumbi

Tel.: 3758-2296

Horário de funcionamento: 12h/14h30, 18h30/22h (fecha dom.)

Não tem bicicletário

Ciclovia na Av. Morumbi (a 350 m)

Valet grátis

 

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