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Restaurantes e Bares

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Um Jovem Turco no Epice

16 agosto 2012 | 08:00 por joseorenstein

James Lowe no Epice. Foto: Felipe Rau/AE

 

De bermuda, camiseta, tênis e bolsa a tiracolo, esbaforido com o calor tropical, mas de topete alinhado, James Lowe, de 33 anos, chega para entrevista no restaurante Epice, onde preparou menu especial a convite do chef Alberto Landgraf. O jovem chef britânico havia tentado ir ao MAM, mas perdeu-se nos descaminhos de uma Pauliceia pouco amigável aos pedestres. Lowe só gosta de conhecer cidades a pé.

O cozinheiro é um dos artífices da pequena revolução em curso na mesa britânica, que vem deixando de ser cara e ruim (o assunto foi capa do Paladar há um ano). Mas não há empáfia em seu discurso.

Lowe dispensa o formalismo, sem descuidar da forma. Sua inspiração não vem do estilo nababesco da alta gastronomia francesa, que diz detestar e que por muito tempo foi paradigma de boa comida em Londres. É à audácia despretensiosa do americano wd˜50 e à simplicidade rigorosa do dinamarquês Noma e dos conterrâneos The Fat Duck e St. John Bread and Wine (onde foi chef principal) que Lowe credita suas maiores influências.

É a mesma simplicidade que, guardadas as proporções, Lowe diz ter encontrado na comida de rua da Cidade do México, onde estava antes de aportar na capital paulista. Nos últimos meses, o chef passou pela China, Taiwan, Dinamarca, Itália e México. Daqui, vai para Rio, Belém e Bogotá. Paga a viagem com os jantares que faz (como o que fez no Epice na segunda (13/8) e festivais de que participa.

A fama que lhe franqueia os convites Lowe conquistou no St. John e também com os Young Turks. O projeto nasceu há dois anos, em Londres, com Isaac McHale e Ben Greeno. Valorizando ingredientes locais e ocupando espaços insólitos, eles fazem disputados “jantares relâmpagos” em lugares como um escritório de prédio a ser demolido, com estantes tombadas fazendo as vezes de bancada, ou uma cobertura de estacionamento. A última empreitada durou até abril, no sótão do Ten Bells, centenário pub onde, dizem, batia ponto Jack, o Estripador.

A limitação desse tipo de evento é que estimula a criatividade dos Young Turks. O custo também: os jantares são financiados com as entradas vendidas com antecedência nas redes sociais.

Young Turks (Jovens Turcos) é como ficaram conhecidos os líderes do movimento que modernizou a atual Turquia dos escombros do Império Otomano, no início do século 20. Na Inglaterra, que ocupou boa parte dos territórios otomanos após a 1ª Guerra, young turk virou sinônimo de contestador, rebelde. “Queríamos questionar o status quo da cozinha britânica”, explica Lowe, que no entanto admite ainda não ter conseguido livrá-la do fish and chips.

Os Young Turks, portanto, têm trabalho pela frente – mas em ritmo desacelerado. Ben Greeno deixou o grupo para trabalhar na cadeia Momofuku. Isaac McHale está abrindo um restaurante. E também Lowe está à procura de um lugar fixo para cozinhar. Mas sem caretice, sem abandonar o risco. Até os 23 anos, antes de ser chef, ele queria pilotar aviões.

Ficou com água na boca?