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Isabelle Moreira Lima

Um azarão leva o prêmio de melhor tinto de Portugal

Um tinto "barato" feito com vinhas jovens no Douro foi o preferido do júri formado por 40 jornalistas e especialistas de 12 países na prova que elegeu os melhores dez vinhos do país e que abriu a feira Essência do Vinho, no Porto

01 março 2017 | 17:31 por Isabelle Moreira Lima

Na prova que elegeu os 10 melhores vinhos de Portugal que entraram no mercado de lá no ano passado e que abriu a feira Essência do Vinho, no último fim de semana no Porto, o escolhido como o melhor tinto – Quinta das Bandeiras Passagem Grande Reserva 2009 – é um azarão. Trata-se de um vinho de projeto jovem (de 2005), extraído de videiras de apenas quatro anos e que chegou ao mercado já com oito anos de guarda, características  distantes do que se vê entre produtores portugueses. Sem falar que custa 35 euros, pouco se comparado aos 350 euros do icônico Barca Velha. No entanto, foi o preferido do júri formado por 40 jornalistas e especialistas de 12 países – incluindo esta que vos escreve (veja a lista completa.)

O enólogo Jorge Moreira, consultor da vinícola do tinto vencedor o Quinta das Bandeiras Passagem Grande Reserva 2009

O enólogo Jorge Moreira, consultor da vinícola do tinto vencedor o Quinta das Bandeiras Passagem Grande Reserva 2009 Foto: Divulgação

A escolha ignorou a preferência do país pelos vinhos feitos a partir de suas vinhas velhas e confirmou um encantamento com o enólogo Jorge Moreira. Mais conhecido por estar há 20 anos à frente da Real Companhia Velha (cujo vinho mais vendido e conhecido no Brasil talvez seja o Porca de Murça, marca de sucesso em supermercados), foi eleito também o enólogo do ano pela revista Wine, uma das principais publicações especializadas portuguesas. 

Não é difícil entender porque Jorge Moreira se vê sob os holofotes. À frente da companhia tão antiga quanto o DOC Douro (foi criada junto à demarcação que regulou a produção dos vinhos do Porto, em 1756), consegue fazer projetos como o Séries, em que pesquisa e explora castas autóctones esquecidas, e o do vinho que substitui sulfitos (conservante que pode causar alergia em alguns e é odiado por outros) por taninos. “Somos a companhia mais antiga, mas a que mais ousa”, diz Moreira. O que ele não contou ali é que a ousadia parte dele e pode ser identificada em outros projetos, como no pessoal Poeira, e até nas consultorias que presta, como a da Quinta de la Rosa, que detém a marca premiada Quinta das Bandeiras (é a Adega Alentejana que a traz para o Brasil, como o rótulo Passagem 2012 a R$ 198).

Antes de ganhar o prêmio, comentou que passou toda a vida se preocupando com os vinhos tranquilos do Douro, pelos quais ficou mais conhecido. Mas hoje diz que sua energia tem se voltado aos vinhos do Porto, que enfrentam uma crise de imagem em todo o mundo, por serem tratados (e bebidos) por um público mais velho. Segundo ele, os motivos seriam a série de regras criadas para os proteger, uma espécie de agente duplo herói-e-algoz, que impede que o fortificado se modernize. Outro desafio é o tipo de investimento necessário para produzir os Portos, que, em alguns casos, envelhecem por 20, 30, 40 anos. Ou seja, não é coisa para pequeno produtor.

Evento. Salão da Essência do Vinho, feira realizada no Porto que elegeu os 10 melhores do ano

Evento. Salão da Essência do Vinho, feira realizada no Porto que elegeu os 10 melhores do ano Foto: Fabrice Demoulin|Divulgação

Por sorte, Jorge Moreira está à frente de um dos mais tradicionais e antigos produtores, o que pode lhe dar mais poder de barganha para mudar as regras e, principalmente, de investimento para ousar com o Porto como fez com o tinto.

O BRANCO 

Onde já se viu o melhor branco ser de safra ainda mais antiga que o tinto? Em Portugal. O melhor branco, também do Douro, foi o Alves de Sousa Pessoal 2008, dourado, com aromas florais, de fruta (pêssego), mel e até resina, longo e estruturado. Domingos Alves de Sousa já havia subido ao pódio em 2016, mas pelo tinto. Ao receber o prêmio, disparou: “Quem sabe no ano que vem não ganhamos com um fortificado?” No Brasil, está na Decanter.

O FORTIFICADO

A alta qualidade dos vinhos da Madeira foi um dos comentários mais repetidos durante a feira e celebrada na escolha do melhor fortificado do ano, o Barbeito 30 Anos Malvasia Vó Vera, que homenageia a matriarca da família. Com a doçura equilibrada à perfeição, tem notas de mel, figos secos e frutas secas. Na boca é volumoso e agradável, mas é a acidez que impressiona: como pode um vinho doce ser tão explosivo? No Brasil, os rótulos da casa são encontrados na Casa do Vinho.

A PROVA 

No salão árabe do Palácio da Bolsa no Porto, a prova que elegeu os dez melhores vinhos de Portugal teve ritmo tão acelerado que assustou até jurados experimentados. Três minutos para avaliar visual, aroma, paladar e qualidade de um vinho e, por fim, pontuá-lo; seria possível? Ainda havia o temor de que o palato confuso levasse à injustiça. Curiosamente, os três vencedores (entre 61 vinhos) foram os últimos degustados em suas categorias. (Leva a pior quem vai primeiro?) 

A FEIRA

Realizada anualmente desde 2004, a feira Essência do Vinho funciona como um retrato da produção de Portugal a cada ano, ao reunir produtores de norte a sul do país e distribuí-los em stands onde é possível provar uma vasta gama do que produzem. Além disso, há provas temáticas com vinhos raros ou assuntos atuais. Neste ano, destacaram-se uma aula com vinhos da Madeira, além de uma prova com Portos antigos. Ao todo na feira, foram 3 mil vinhos de 350 produtores.

 

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