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Neide Rigo

Maxixe: o primeiro verde a surgir depois da seca

O maxixe é um ingrediente incrível: rústico, nutritivo e, a quem possa interessar, não tem quase nada de calorias

01 junho 2016 | 18:32 por Neide Rigo

Outro dia um grupo de amigas que gostam de cozinhar e trabalham falando e escrevendo sobre comida esteve em casa para algumas horas felizes fazendo nada muito diferente disso tudo. Nossa convidada especial era Ana Rita Dantas Suassuna, autora do livro Gastronomia Sertaneja, que chega sempre cheia de ânimo com histórias do sertão. Desta vez a comida emblemática estava na panela já cozida com temperos, só faltando o leite de coco que veio no vidrinho, comprado pronto, para colocar na hora de servir. 

Entre cachimbos e malassadas, a maxixada brilhou. Cachimbo, para quem não sabe, é de beber; e malassada não vai ao forno. O primeiro é uma bebida feita de cachaça, mel e frutas que, segundo Ana, a moça grávida já começa a receber quando anuncia o pãozinho no forno, para servir às visitas quando vem o rebento. E malassada é a tortilha do sertão feita na frigideira com ovos batidos em neve, farinha de mandioca, temperos. 

Em clima quente, o maxixe é encontrado o ano todo.

Em clima quente, o maxixe é encontrado o ano todo. Foto: Neide Rigo|Estadão

Quem já comeu a maxixada do restaurante Mocotó ou já fez a receita que Ana traz em seu livro ou simplesmente faz deste prato uma mistura do dia a dia sabe que maxixe é um ingrediente incrível: rústico, nutritivo e, a quem possa interessar, não tem quase nada de calorias. 

Em Salvador, comi na casa de amigos a maxixada da Geo, Geralda Oliveira Silva, que comanda a cozinha há anos e incorporou a técnica da família ao seu jeito de temperar. O leite de coco é pouco, mas leva extrato de tomate, camarão seco e ovos. A técnica da família consiste em aferventar rodelas do maxixe antes e espremer um pouco para tirar o excesso de sementes. Já Eliana Santiago, também baiana, mas do sertão, e que trabalhou um tempo comigo, fazia a maxixada na panela de pressão com temperos comuns, tomate, pimentão e coentro, mas refogava tudo com um pouco de toucinho e colorau. 

Ana Rita fica radiante ao contar que o maxixe é o primeiro verde que surge na seca tão logo vem a época das trovoadas. A chegada das águas no sertão é cercada de reverências. Um amigo de Uauá, no interior da Bahia, me conta que o pai não deixava ninguém continuar deitado se por acaso a chuva chegasse no meio da noite. É falta de respeito. Todos se sentavam e rezavam em agradecimento ao milagre da vida. Pela manhã, os filhos saíam a plantar os grãos, o milho, o feijão, mas o maxixe brotava sozinho, por bondade, de sementes de outras safras. Em pouco tempo, já podiam colher os primeiros frutos. Os primeiros verdes da temporada a irem para a panela que andava meio pobre.

Do calor. A planta Cucumis anguria é originária da África e foi uma das preciosas contribuições dos escravos à nossa dieta, nos impondo além de pedidos de desculpas também o eterno agradecimento. Logo se transformou numa espécie quase espontânea por todas as áreas tropicais. Do sudeste brasileiro até o sul dos Estados Unidos, o maxixe nasce à toa, sem muitas exigências a não ser o calor. Na Flórida, numa extensão limitada há cultivo para a fabricação de picles. 

Por aqui, ele é mais apreciado fresco, na maxixada, na feijoada, nos escaldados e cozidos. E até em saladas, sucos, drinques – Ana Luiza Trajano, do restaurante Brasil a Gosto, inventou o seu “dry maxixe”. O perfume do legume lembra o de pepino e deixa um aroma bom na bebida.

 

  Foto: Neide Rigo|Estadão

Aliás, o maxixe é do mesmo gênero do pepino e mesma família do melão, da melancia, da abóbora e do chuchu. Como todas estas plantas, o maxixeiro é planta rasteira ou trepadeira e tem gavinhas. As primeiras folhas lembram as de melancia, mas tão logo os frutos ganham tamanho de uma noz já podem ser colhidos. Nas feiras e mercados do Nordeste onde são encontrados, costuma-se vê-los amarrados pelo “rabo”, um fio fibroso que faz parte do fruto e que é retirado quando vai ser preparado. Em São Paulo, os frutos já vêm sem o apêndice.

Há variedades lisas, mas a maioria tem casca fina com muitas pontas na forma de espinhos macios. São comestíveis, mas podem ser raspados. Não precisa tirar a casca, que fica macia depois de cozida e nem as sementes, que dão crocância.

Não é em todo supermercado que você vai encontrar o legume, mas em mercados municipais e, principalmente, ao redor deles, em barraquinhas, é certeza o ano todo. Em frente ao Mercado da Lapa há uma feira informal que tem sempre maxixe e tudo o que mais precisar para a maxixada: coentro, tomate, pimentão, cebola, cebolinha. Além de macaxeira, abóbora madura, feijão de corda, coco e quiabo para completar. 

Escolha os menores, mais firmes. Conforme amadurecem ficam amarelados, as sementes endurecem e o sabor ganha um tico de amargor. Quando estiverem maduros, melhor plantar.

A maxixada que fiz é parecida com a da Ana Rita, mas gosto de cozinhar os legumes em metades e juntar um pouco dos temperos frescos no final para me aproveitar das cores. De resto, é igual. No livro dela há muitas outras preciosidades do sertão que não podem ficar esquecidas por aí. 

Ficou com água na boca?