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Vídeos para aprender a cozinhar em 1 minuto

Tendência em crescimento, vídeos curtos de até um minuto de duração mostram uma culinária descomplicada que adota ingredientes inusitados

14 de setembro de 2021 | 05:00 por Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

Coisas que você pode aprender em apenas 1 minuto: preparar um cachorro-quente vegano, fazer um bolo de pipoca com jurupinga, cortar uma melancia, entregar um carbonara com miojo, surpreender com um Sonho de Valsa empanado, asinha de frango com Coca-Cola ou simplesmente abrir uma garrafa de vinho usando um isqueiro.

Disponível desde junho de 2021, o YouTube Shorts (plataforma de vídeos curtos) tem permitido aos usuários gravar vídeos na vertical com até 1 minuto de duração no aplicativo do Google. O formato, claro, dialoga com o sucesso do TikTok e do Reels (Instagram) – permitindo ao criador de conteúdo reproduzir seus posts por diversas redes. Ainda não existem números consolidados sobre acesso e visualizações no Brasil. No último mês de julho, foram mais de 15 bilhões de visualizações diárias do Shorts no mundo. 

Sau Sampaio. Proposta não é de uma cozinha profissional, mas acessível aos curiosos e cheia de dicas

Sau Sampaio. Proposta não é de uma cozinha profissional, mas acessível aos curiosos e cheia de dicas Foto: Felipe Rau/Estadão

Por enquanto, quem melhor abraçou a objetividade do Shorts foi a turma engajada no conteúdo gastronômico. Entre os canais que mais se destacam estão o Sau Sampaio, Larica Vegana, Go Han Go e Receitas do Kazu. De forma geral, a proposta não é de uma cozinha profissional, mas acessível aos curiosos, divertida e cheia de dicas. 

Para o gerente de Cultura e Tendências do YouTube Brasil, Bruno Telloli, de 37 anos, o pilar da culinária nessa plataforma cresceu ainda mais nos últimos meses (e durante a pandemia). “As pessoas procuram receitas para fazer em casa, tem também os adoradores de airfryer (fritadeiras elétricas)... Tudo isso ajudou o crescimento do Shorts. Esses produtores de conteúdo sabem se comunicar com a Geração Z”, disse Telloli. Canais como o do Sau Sampaio e o Go Han Go tiveram um crescimento de mais 150 milhões de visualizações desde que o formato começou a ser testado por eles. 

 

Criadores

Saulo Sampaio, de 28 anos, conhecido como Sau Sampaio, tem um canal de gastronomia no YouTube. Sau é um dos produtores de conteúdo que têm feito melhor uso de vídeos curtos. Apaixonado por gastronomia desde a adolescência, ele é fã dos chefs que abriram as portas no universo televisivo, como Jamie Oliver e Nigella Lawson. Sau tem formação em engenharia, mas atuou muito tempo com marketing. Ele também participou de um episódio do Masterchef. 

“Eu já tive um canal de surfe, já tive um canal sobre meu intercâmbio na França. Eu já estava nesse ecossistema. Mas larguei tudo para focar na produção de vídeos de gastronomia de forma mais efetiva. Pesquisei muitos os produtores internacionais que estavam viralizando com uma cozinha maluca e despojada”, disse Sau. 

A resposta do público foi uma bola de neve. Vídeos com receitas usando frutos do mar ou como fazer um bife usando o motor do carro são clássicos no canal dele. “Os vídeos curtos já substituíram o post com foto para a turma mais nova”, disse. Normalmente, Sau produz e edita o conteúdo sozinho, diretamente da sua cozinha. Eventualmente, quando o post faz parte de uma campanha patrocinada, ele conta com a colaboração de roteiristas e editores. 

Os vídeos de 1 minuto são certeiros para o humor, mas também funcionam para passar um recado. É o caso do canal Larica Vegana, apresentado por Luísa Motta, de 22 anos. “A ideia do canal é trazer uma nova cara para o veganismo. Nós sabemos que esse é um tema sério, mas a entrada de muita gente neste universo pode ser pelo entretenimento. Com os vídeos, quebramos estereótipos”, disse Luísa. 

Larica Vegana. ‘Ideia do canal é trazer uma nova cara para o veganismo’, diz Luísa Motta

Larica Vegana. ‘Ideia do canal é trazer uma nova cara para o veganismo’, diz Luísa Motta Foto: Tito Motta

Para Luísa, o público ainda está se adaptando aos vídeos mais curtos do seu canal. “Neste formato, mostramos receitas rápidas como a do molho de tomate, da guacamole ou do homus. Quero mostrar que o veganismo é mais do que possível. Ele é gostoso. E o Shorts é um espaço para descomplicar todas essas questões”, falou. “Toda vez que encontro ‘lariquentos’ (apelido dos seguidores do canal), percebo que é um público muito parecido comigo. Também temos muitas mães, que seguem o canal para acompanhar os filhos que decidiram se tornar veganos”, completou.

 

O Larica Vegana começou com uma ação entre irmãos (Luísa e Tito Motta). Hoje, o canal emprega sete pessoas em regime de CLT. A profissionalização desses canais parece um caminho sem volta.

O Go Han Go, por exemplo, tem quatro apresentadores e quatro pessoas que atuam nos bastidores (com edição e análise de dados, por exemplo). “A gente nasceu para desmistificar a cozinha asiática, mostrar que ela é mais acessível e não é um bicho de sete cabeças”, disse a apresentadora Cintia Zhu, de 25 anos. 

Go Han Go. Cíntia Zhu, Hideki Uehara, Jão Yamashita e Allison Seidi: desvendando a cozinha asiática

Go Han Go. Cíntia Zhu, Hideki Uehara, Jão Yamashita e Allison Seidi: desvendando a cozinha asiática Foto: Mihaela Massaki

Dinamismo e diversão estão na base dos vídeos do Go Han Go. “Temos mães que dizem que os filhos começaram a cozinhar por causa dos nossos vídeos”, disse Cintia. Nos vídeos curtos, o canal apresenta receitas práticas e curiosas, com ingredientes inusitados, mas de fácil aplicação – como é o caso de um dos hits do canal, a asinha de frango com Coca Cola. 

A culinária oriental é mesmo um sucesso no formato de vídeos curtos. No canal Receitas de Kazu, o sushiman Kazu Massaki, de 54 anos, apresenta técnicas e receitas de sushi, sashimis e outros. “Comecei no início da pandemia. Meus pais tinham restaurante, mas não quis viver preso em um restaurante. Fui trabalhar com eventos, mas com a pandemia tudo parou. Então, vim para o YouTube.

Com as pessoas ficando mais tempo nas suas casas, tive um pico de inscritos no canal. A coisa funcionou e tem sido uma ótima experiência”, garantiu. 

“Quando faço os vídeos longos já aproveito para uma versão mais curta. Com ele, toda a enrolação vai embora. Precisamos ser mais objetivos. Fica nos vídeos curtos só o que é fundamental”, explicou. Kazu aponta que as versões reduzidas engajam mais o público e aumentam a visualização dos canais, mas ainda não são suficientemente monetizadas. “Mas isso é uma questão de tempo. Logo, serão tão relevantes quanto os vídeos mais longos”, completou. 

Estudo

Um estudo promovido pelo próprio YouTube concluiu que o nicho de vídeos curtos (Shorts) ainda está em fase de crescimento. De acordo com a pesquisa, os criadores de conteúdo ainda estariam se adaptando ao novo formato – e que dos principais canais de gastronomia no Brasil apenas alguns já teriam aderido ao Shorts. “Como a maioria dos criadores de vídeos sobre gastronomia é de uma geração mais velha, eles ainda podem ter alguma dificuldade em se familiarizar com os conceitos de edição e roteiro para um vídeo de 1 minuto. Ainda assim, de acordo com o texto, a expectativa é de grande expansão, principalmente contando com o engajamento do público dos grandes canais. 

Viralizou 

A receita de macarrão com queijo feta assado e tomates virou um fenômeno culinário nas redes sociais no início do ano: queijo feta, azeite e tomates cereja assados e misturados, na própria assadeira, com uma massa curta. Só no aplicativo de vídeo TikTok, teve mais de 6 milhões de visualizações em apenas dois meses. Sem contar os compartilhamentos no Instagram, Twitter, Facebook, sites e blogs pelo mundo todo. 

Bombou de tal forma que a história foi parar no The New York Times – não na seção de receitas, mas em uma reportagem sobre o fenômeno, batizado de “efeito feta no Tiktok”. O efeito feta, no caso, foi o sumiço do queijo de leite de ovelha, salgado e de massa firme, o mais popular da Grécia. Simplesmente acabou nos Estados Unidos. Queijeiros correram para intensificar a produção, mesmo assim não deram conta da demanda.

O macarrão das redes sociais: com queijo feta e tomates cereja assados.

O macarrão das redes sociais: com queijo feta e tomates cereja assados. Foto: Patrícia Ferraz/Estadão

A receita foi publicada pela primeira vez em um blog na Finlândia, em 2018. Bombou por lá: teve 27 milhões de visualizações, num país com 5,5 milhões de habitantes. Mas só viralizou mesmo, quando começou a aparecer no TikTok em janeiro deste ano. Virou uma febre, cada blogueiro ou influenciador culinário dando seus pitacos.

O sucesso se explica: a receita é fácil, tem enorme apelo visual e é boa – o queijo derrete, fica cremoso, envolve a massa e os temperos... Não chega a ser a melhor massa do mundo, mas é gostosa. O Paladar testou a receita, confira aqui como fazer. 

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